quinta-feira, 15 de março de 2018

Estão em sintonia

https://goo.gl/images/a583lF


Depois dos incêndios, muitos foram os que apregoavam o fim da boa relação São Bento - Belém - o mesmo é dizer entre Costa e Marcelo.

Pois bem, a verdade é que os tempos têm sido muito mornos politicamente em Portugal. Ou melhor, nem tanto a nível político, porque entretanto a direita está a arrumar a casa, com os seus congressos mais ou menos pop star, com banhos de mais ou menos ética. A temperatura está, digo eu, morna politicamente porque entre as ações do Governo e a atividade presidencial, nada vai correndo mal. E claro, em Portugal, a notícia é o que corre mal, nem tanto o que corre bem... não convém.

Este sábado, o Expresso noticia que o Presidente da República está a ponderar apertar o cerco a Rui Rio caso este tarde em fazer oposição ao Governo. Primeira questão: é o Presidente que tem de fazer oposição? O argumento até que não é inválido, ora o Presidente quer um Governo forte e uma oposição também ela forte. Todos reconhecemos, creio, o quão importante isso é para uma democracia funcionar bem.
E eu lia a notícia e pensava: bem, de facto já houve melhores dias para aquelas bandas. Mas não passavam de notícias. Nada de concreto ainda. Lá está, está tudo morno.

Ontem, também o Expresso, tem duas notícias em que eu tenho até dificuldade em perceber as diferenças reais. Marcelo está na Grécia. A Grécia está de saída dos programas de ajustamento que recorreu. Marcelo foi a Atenas dizer que podem contar com Portugal nesta altura decisiva da sua governação, até porque Portugal também passou pelo mesmo há pouco tempo. Certo, Sr. Presidente, mas Tsipras não é Passos Coelho. Fala-se da uma saída limpa. E eu pergunto: já se esqueceram dos momentos em que a Grécia entrava nas casas de todos nós, com manifestações e índices de pobreza? Parece que sim. Continuemos então.

Costa, por sua vez, foi discursar ao Parlamento Europeu e dizer que podem contar com Portugal. António Costa foi a Estrasburgo reivindicar uma Europa mais unida, mais coesa e mais igualitária. Propos um aumento de receita e disse desde logo que Portugal está disposto a aumentar a sua contribuição.

Em comum, para além do título das notícias, Costa e Marcelo mostram Portugal como ele é: um país responsável, organizado, economicamente a recuperar, com visão, europeísta e solidário.

Apesar de haver o que os separe, continua a ser muito mais o que os une.


segunda-feira, 12 de março de 2018

Na casa do vizinho... dois quarteirões ao lado

Falar do congresso do CDS-PP é, para mim, como falar da casa do vizinho.
Mas a verdade é que nem eu sou porta voz do PS e nem o PS e o CDS-PP estão assim tão próximos para serem verdadeiramente vizinhos.

Este congresso demonstra uma de duas coisas:
- Ou há de facto falta de conteúdo jornalístico em Portugal;
- Ou estamos perante uma operação de maquilhagem, com branding à mistura, como já não se via há muito tempo, creio.

Vamos por partes. Primeira coisa. Paulo Portas? Onde? Exato, lado nenhum a não ser, claro, num vídeo. Paulo Portas, até agora o sempre disponível para o CDS, não pôde comparecer no congresso do CDS-PP (estão a sentir a diferença? Já lá vamos).

Mas adiante. Não é propriamente Paulo Portas que quero falar. Dele, falaremos daqui a uns 8 anos. Veremos.

Se Assunção Cristas soube lidar e aproveitar bem o espaço deixado pela não oposição de Passos Coelho ao Governo e essencialmente, o desaire das autárquicas, principalmente em Lisboa, muito melhor está agora a fazer com Rui Rio.

Rui Rio, de quem ainda não falei aqui no blog depois de ser eleito líder da oposição (existe?), tem tardado em se afirmar, e os passos que tem dado são de completa rutura com o PSD que estava instalado, confortavelmente. Há um senão. A sua vitória não foi assim tão expressiva para tal rutura. Mas isso é outro artigo, daqui a uns dias, até porque o quarteirão a que o PSD fica do PS não é assim tão distinto do CDS-PP.

Vamos já esclarecer esta questão do CDS e do CDS-PP. É que com a vitória de Rui Rio sobre Santana, o PSD deslocou-se ligeiramente para o centro uma vez que ficou mais longe do PPD-PSD de Santana Lopes. Ora, criou-se assim um espaço que pode ser aproveitado pelo CDS-PP e não pelo CDS. Qual a diferença? É que o CDS, de Paulo Portas, era a moleta de quem fosse preciso para chegar ao poder, era o centro direita, mas tal como "Chicão" (como Francisco Rodrigues do Santos é conhecido) fez questão de levar a congresso na sua intervenção, explorou bem o lado mais conservador do CDS (-agora PP).
Adolfo Mesquita Nunes, que há bem pouco tempo foi notícia e virou político de direita trendy, quer também ganhar espaço e há mesmo quem diga que os dois se vão defrontar no futuro (sim, já estamos no campo da futurologia em política), prometeu a Francisco um lugar na Assembleia da República como deputado. Portanto, no futuro, será visto como o Júlio Isidro do CDS-PP? A verdade é uma, se for para se defrontarem, esta promessa, pública, será como uma pedrinha no sapato de Chicão.

É importante, agora a terminar, falar de 3 coisas. A Assunção Cristas, que quer ser Primeira-Ministra, do militante que não passou na TV à hora do jantar, mas que é de Viana do Castelo e esperou o dia todo para falar, olhos-nos-olhos com a líder aclamada e ainda do CDS (PP ou não) que Governou Portugal.
Assunção Cristas, que também governou Portugal entre 2011-2015, diz que se vê como Primeira-Ministra, e tem já a solução na manga. Pela intervenção dela, em que reconhece que para governar não é preciso ganhar eleições, mas sim contar com 116 deputados e quer ser a primeira escolha. Ora, ou o CDS-PP tem mais deputados que o PSD, ou então o PSD de Rui Rio, que parece não querer saber de 2019 terá de ceder o cargo de Primeira-Ministra para uma coligação pós-eleitoral. A esta altura, e estamos muito longe, parece certo que vão a votos separadamente. Por aqui já se vê, falta um quê que estratégia, mas tudo bem. Ser Primeira-Ministra quando se lidera um partido que tem menos de 7% das intenções de voto, parece de facto ser megalomania como diz Marques Mendes.
Entretanto, um militante de Viana do Castelo foi ao congresso reclamar a Assunção Cristas o pouco tempo que passou na concelhia dele e denunciou que o líder da sua distrital desrespeitou o partido ao lá ir apenas negocial lugares... Enfim, não sei bem o que dizer, fico-me entre o "bom dia meu caro" e o "falta mais pessoas assim nos congressos (plural)". Prefiro, obviamente, a segundo. Porque a primeira hipótese revela o óbvio, a podridão nos partidos (plural, outra vez).
Por último, não podemos esquecer o mais importante, o CDS-PP participou no Governo de Durão Barroso, que ficou a meio, e no Governo de Passos Coelho, que apesar de ter cumprido um momento difícil da nossa democracia, quis ser mais troikista do que a troika, e foi aqui que eu entendo que errou essencialmente. Podemos ainda relembrar que Assunção Cristas permitiu, na sua governação, a plantação de vários hectares de eucaliptos. Eu sei que se não tivessem sido os incêndios do ano passado, ninguém queria saber. Mas se não tivessem sido essas tragédias, teríamos tido o melhor ano da nossa democracia (dito pelo Marcelo).

CDS e CDS-PP, essa operação de maquilhagem não nos engana, e não precisamos de pensar muito, muito, muito, como Assunção Cristas em relação à pena que possa ter dos touros das touradas.

segunda-feira, 5 de março de 2018

Itália, as boas notícias não chegaram

https://www.sapo.pt/noticias/economia/italia-esta-preocupada-enquanto-a-europa-se_5a9d096e882043261847b085

De Itália não vieram as melhores notícias este fim de semana.

Domingo acordamos com a notícia que o lendário capitão da Fiorentina, equipa a jogar no primeiro campeonato italiano tinha falecido, de morte súbita, durante a noite em estágio. Todos os jogos foram cancelados e houve umas sapatilhas que tinham ficado esquecidas e que ficaram sem dono
Esta é daquelas histórias que não gostamos que nos façam chegar, por sabermos que são reais e, como tal, pode acontecer a qualquer um de nós. Por outro lado, se houver alguma morte santa, como no quotidianos todos usamos essa expressão, deverá andar muito perto desta definição.

Mas em Itália, o dia era também de eleições. Por esta hora, ainda não se sabe qual será o derradeiro desfecho destas eleições. E para sermos honestos, depois do que aconteceu em Portugal em 2015, bom é esperar sempre até tomadas de posse, e mesmo assim, em Portugal o XX Governo Constitucional teve apenas dias de vida...

Não sendo eu um perito em política internacional, mas naturalmente por esta me interessando, principalmente se for um país da União Europeia e da Zona Euro, mais ainda. Pelo menos, por enquanto. Sim, já lá eremos.

Liga, Forza Itália (FI), Irmãos Itália, Movimento 5 Estrelas (M5S), Partido Democrático. Ou então, Salvini, Berlusconi, Di Maio, Renzi, Beppe Grillo e Lou Reed... Todos foram protagonistas. Primeiro, partidos, depois, pessoas. Mas o que é que Ex-Primeiros-Ministros, humoristas e cantores aparecem no mesmo segmento e foram todos protagonistas ou chamados há história do dia das eleições? É o que passo a explicar.

Surpresas acontecem em eleições. Certo? Aprendemos com o Brexit, a mais não seja. Salvini, líder do partido Liga, reclama que deve formar Governo, mas acontece que Di Maio também. Soa a familiar? Estamos a ir bem então. O primeiro lidera o partido mais votado de uma coligação de direita e extrema direita, o outro, lidera o partido que isoladamente obteve mais votos. Complicado? Este artigo deve ajudar.
A diferença entre o partido mais votado e a coligação (que ao contrário do que aconteceu em Portugal com o PSD e CDS a disputarem as eleições juntos, em Itália os 3 partidos coligados foram a votos separadamente) é de 5%. M5S obteve 32% e a coligação 37%. Ao que parece, no acordo de coligação estava previsto que o partido mais votado seria o que iria formar Governo, e foi aqui que Berlusconi saiu surpreendido.
Mas faltam ainda nomes e partidos. Cá vamos. Partido Democrático, de Renzi, foi o grande derrotado. Já se demitiu, inclusive.

E o que defendem os dois candidatos que defendem que devem formar Governo? Uma política eurocética, contra o projeto do euro. Aliás, na sua génese, o Movimento 5 Estrelas até é contra o sistema e contra os partidos. Vai-se a ver e ganha umas eleições... Lições? Vária. A começar nos partidos, que devem fazer uma profunda reflexão se estão a ir de encontro com o eleitorado ou se estão apenas a dar azo a que partidos contra o sistema se instalem no poder, e se tornem eles partidos de poder. Como em Itália está a acontecer.

Para a Europa, ou para uma visão europeísta, como a minha, dentro do resultado, o que ainda seria menos mau era que Di Maio conversasse com Berlusconi, porque o primeiro, apesar de populista, foi acalmando os ânimos antissistema nas últimas semanas, já Berlusconi, é raposa conhecida pelas instituições europeias e não parece querer mudar de ideais nesta matéria. Por sua vez, Salvini coloca em perigo os esforços que a UE tem vindo a encetar no sentido de acolher refugiados e tem em mente um encerramento das fronteiras, com a insignia de os "italianos primeiro". E não sei, mas esta parece-me ser uma ideia bastante perigosa para aquilo que temos como dado adquirido, e talvez não seja assim tão certo, como a sociedade europeia como a conhecemos.

Por fim, os italianos fizeram o que, indiretamente, o fundador do M5S, e humorista Beppe Grillo recomendou. Depois de votar, e com os jornalistas junto ao seu carro, o humorista colocou em alto e bom som a musica "Walk on the wild side", de Lou Reed. E assim aconteceu, veremos o resultado. Mas Augusto Santos Silva parece estar cauteloso... Não é caso para menos.

sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018

A arrogância de quem vive bem


Faz já algum tempo que não escrevo, eu sei, mas desta vez tinha mesmo de ser.

Apesar de andar atarefado, a capa do jornal i não merece que nos fiquemos calados. Temos, todos, de comentar, opinar, agir, fazer o que for.

Eu sei que ao fazê-lo, estou a dar atenção e a contribuir para a difusão deste tipo de pensamento, retrógrado, pobre e inútil. Prejudicial e que não beneficia ninguém, nem mesmo quem teve a coragem de fazer tal afirmação.

Quando digo coragem, não é um elogio, antes pelo contrário. É tal a coragem, que chega a ser decadente.
(Enquanto estou a escrever, no meu Spotify vai passando uma musica que não conhecia, mas que se adequa na perfeição - O Charlatão, de Sérgio Godinho).

A sede por likes, aprovação social e por notoriedade, a custa de tudo e de todos, é cada vez mais um problema na nossa sociedade, mundial, e que nos faz, a todos os que cedemos, de uma forma ou de outra, cair num superficialismo desmesurável, numa figura de fachada e num narcisismo sem escrúpulos. 

Pedro Marques Lopes, tem uma intervenção belíssima no seu Facebook acerca da manchete hoje do jornal i, que já teve eco nos restantes jornais.
Parece que o líder do Fórum para a Competitividade defende que não estamos a crescer a 4% - ao invés dos 2,7% de 2017 - porque não queremos. Em manchete, o destaque é para a afirmação "As empresas não conseguem contratar porque as pessoas não querem trabalhar", Ferraz da Costa vai ainda mais longe e diz que é preciso gente nova, porque senão daqui a pouco as empresas serão lares da terceira idade!

Ora, até pode ser que a justificação seja eu ser jovem, mas logo que li esta manchete, lembrei-me dos milhares de jovens que, todos os anos, saem do ensino superior e procuram uma oportunidade, digna, de trabalho e muitas vezes esbarram na precariedade, nos estágios de 9 meses que se seguem de desemprego. Aqui, não me parece que seja culpa das pessoas.
E aqueles que estão na chamada meia idade? Que foram despedidos, fruto da crise, e que querem trabalhar e são velhos para trabalhar e novos para a reforma? A culpa é das pessoas? E o que dizer daqueles que recebem menos de 600€? Conseguem planear um futuro? A culpa é destas pessoas?

E vejamos. As empresas não são feitas de pessoas? Não são as pessoas que as lideram? Que definem as suas visões, missões e valores? Será que Ferraz da Costa consegue desassociar totalmente as pessoas das empresas como Passos Coelho desassociou Portugal dos portugueses?

Termino como Pedro Marques Lopes terminou, com um recado a Ferraz da Costa, e mesmo aos que como ele pensam ou atuam: "faz lá o recorte do jornal, vai mostrar aos amigos e no caminho vai à merda".

quarta-feira, 15 de novembro de 2017

Por uma Política de Imigração

Numa das primeiras aulas de economia, há uns anos atrás, ensinaram-me aquilo que está na base do estudo da economia: necessidades ilimitadas e recursos escassos. É importante reter esta ideia, como veremos mais adiante.

Sei também que poderiam estar a espera que dissesse algo sobre jantares no panteão ou o Orçamento de Estado, ou que a escrever desta forma sobre imigração, talvez fosse em 2015 quando fomos assolados com imagens (fotografias e vídeos) e notícias acerca dos refugiados e com histórias verdadeiramente preocupantes de pessoas que arriscam tudo pelo incerto, na tentativa de fuga à guerra ou simplesmente porque pretendem usufruir da liberdade individual e lutar por uma vida melhor noutro espaço.

Na semana passada, tive a oportunidade de assistir a um debate acerca da cidadania e das migrações, do qual fiquei a refletir. Numa das intervenções, a de Rui Pena Pires, foram abordados essencialmente 3 grandes tópicos, sendo eles o declínio da natalidade, o saldo migratório negativo e a sustentabilidade demográfica e políticas públicas, deixando também exemplos de medidas de política que poderiam ser adotadas, como veremos mais adiante.
Obviamente não irei aqui transcrever a intervenção, mas destacar o essencial que me parece pertinente um olhar mais atento e que pretendo, com este artigo, trazer para os mais jovens esta visão mais académica, com dados, para a importância de adoção de políticas de imigração, ou até, se ainda for esse o estágio da mente de quem esteja a ler, a eliminação de barreiras e das fronteiras migratórias que ainda existem. Mas para nós, jovens, é absolutamente dispensável que as mesmas ainda existam.

É, creio eu, do conhecimento geral que a natalidade e a fecundidade em Portugal estão em drástico decréscimo. Para termos uma ideia, estas taxas entre 1960 e 2016 passaram de 24.1 para 8.4 (por mil habitantes) e de 3,2 para 1,36 (por mulher em idade fértil), respetivamente. Este não é um desenvolvimento único de Portugal. Em nenhum dos países da União Europeia está assegurada a substituição das gerações. O problema é que em Portugal, a tendência é mais acentuada. Daí a nossa necessidade para olhar para este problema.

Com o alargamento da esperança média de vida e com a redução da fecundidade e natalidade, podemos observar que Portugal tem cada vez mais idosos e menos jovens, ou seja, menos ativos por inativos. E este é um problema sério para Portugal e para o seu desenvolvimento económico e para a saudável substituição de gerações que, todos, deveríamos ambicionar.

A curto prazo, a tendência relativa aos dados apresentados não se irá inverter, e por isso, é necessário olhar para outros instrumentos e dados para que possamos aumentar a nossa população em idade ativa.

É importante nesta fase desfazer alguns mitos. Todos, creio, temos a ideia de que a população está a diminuir, mas não. Segundo a ONU, em 2050 teremos no mundo cerca de 9 mil milhões de habitantes. Dito assim pode até não parecer um aumento significativo, mas vejamos que entre 2010 e 2050 o aumento será igual ao total de habitantes em 1950, e por aqui, acho que já todos percebemos a dimensão.

Não é grave haver menos população, em Portugal ou noutro país qualquer, o grave é a forma como a transição está a decorrer. Para a sustentabilidade da substituição de gerações e na ótica de menos população, teríamos de ter menos jovens, mas menos idosos também. O que não está a acontecer e tal situação faz-nos incorrer em sérios problemas, nomeadamente económicos e sociais.

A questão aqui é que o aumento da população se tem verificado nos países em desenvolvimento, e não nos desenvolvidos. Ora, os países desenvolvidos e o crescimento das suas populações dependem dos movimentos migratórios. E aqui, o cenário português não melhora, antes pelo contrário. Praticamente todos os portugueses encontram na sua família casos de emigração, seja pela geração mais idosa que certamente encontrou na emigração uma saída para a melhoria de condições de vida nos anos 60, ou pelas gerações mais novas que nos últimos anos tem vindo a procurar lá fora oportunidades melhores. Os dados da emigração são idênticos nos dois períodos, sendo que as características e perfil dos emigrantes é diferente, mas isso seria uma discussão para outro artigo.

E aqui aparece-me o primeiro argumento claro de promoção de políticas de imigração. Ora, se temos tradicionalmente uma cultura emigratória, porque não aceitamos ter imigrantes em Portugal? Parece-me uma questão até de justiça social e até um dever promover tais políticas. 

Nesta fase temos já importantes elementos para formar opinião quanto à necessidade de aumento da população ativa, pela via da imigração, mas vejamos agora quando é que ela acontece de uma forma mais acentuada.


Correlações entre taxa de emprego e desemprego e os movimentos migratórios


Imigração
Emigração
Taxa de emprego
0.70
- 0.77
Taxa de desemprego
- 0.79
0.78
Elaboração própria; Fonte: Observatório da Emigração, Pordata/INE

(Nota: a escala de intensidade da correlação está compreendida entre -1 e 1, sendo estes polos os de maior intensidade, uma vez que 0 é de relação nula)

Ora, por aqui podemos ver que os movimentos migratórios estão altamente relacionados com as condições económicas, nomeadamente a oferta de emprego. Isto é, quando há emprego, tende a haver menos emigração e mais imigração e quando este escasseia, tende a haver mais emigração e menos imigração. Parece ser óbvio, mas é importante analisar o quão óbvio afinal é, e aqui ficam os dados.

Dizer, por isso, que os imigrantes vêm para tirar postos de trabalho em tempos de crise e que fazem baixar o preço de mão-de-obra quando este já é baixo, é absolutamente falso.

Recordando o conceito com que iniciei este texto, da escassez de recursos, e todos percebemos que o planeta tem os seus recursos escassos como o mais elementar de todos, a água,  por exemplo. Não podemos todos ambicionar altas taxas de natalidade e fecundidade, quando está prevista um aumento populacional mundial. E como foi também demonstrado, é o indicador emprego que serve de promoção da atratividade do nosso país para os movimentos migratórios. É com esta ideia que gostaria de terminar, pela defesa de políticas de imigração e de adaptação à realidade, deixando ainda alguns exemplos de políticas que poderiam ser desenvolvidas ou aprofundadas.

Uma vez que a imigração pode ajudar a reduzir os custos de transição, devemos por isso ter uma postura de ação e não de reação, reduzir a irregularidade que se verifica nos imigrantes, reduzir burocracia que se verifica quando um imigrante se tenta nacionalizar português, criar um visto de procura de emprego ou mesmo aperfeiçoar e adaptar aos novos tempos a lei da nacionalidade.


quarta-feira, 18 de outubro de 2017

De Pedrógão ao Orçamento de Estado, Marcelo e Constança no caminho.

Bem, na verdade nem sei bem por onde começar!

Portugal vive dias difíceis. Muito difíceis. Mas é, mais uma vez, a prova que nem tudo é economia (alguns dirão que sim, que há interesses económicos instalados... mas não é esse o ponto).

Uma coisa é para mim clara neste momento. Finalmente, António Costa cometeu um erro grave. Sim, porque quem governa, a qualquer nível, comete erros, e Costa foi cometendo os seus, mas nenhum desta dimensão.

Ele tem razão quando diz que não há varinhas mágicas, mas... a sério que foi dizer que não as há numa hora daquelas? Naquele tom? Com aquela postura? Com o que estava, naquela hora, a acontecer? Nunca o poderia ter feito, mas fez. Deve, a esta hora, dois pedidos de desculpa: 1) pelo Estado ter falhado (já chega com delay, depois de Marcelo [já lá vamos]) na mais elementar das suas funções de soberania; 2) por ter cometido um erro de inabilidade política, e sim, estamos a falar de António Costa que é muito hábil politicamente.

(Adenda: António Costa já pediu desculpa no Parlamento, enquanto o artigo estava a ser publicado. O que não invalida a opinião continuar a ser expressa para vosso conhecimento, mas fica a nota de que Costa já o fez)

Já no seguimento da catástrofe em Pedrógão, achei que a Ministra não teria condições políticas para continuar, apesar de tecnicamente ser muito boa, também é preciso habilidade e condições políticas (veja-se o exemplo de Centeno, que foi ganhando de dia para dia até ser o Ministro que é hoje), e a Ministra, claramente, a perdeu em Pedrógão. Eu concordo que a demissão fosse o caminho mais fácil e que não fosse esse o que Costa quisesse seguir, mas tinha de ser, quando ainda nem a fase supostamente mais complicada dos fogos tinha chegado (e não, eu não me junto aos especialistas florestais, de combate a incêndios e de proteção civil que de repente brotaram como cogumelos em Portugal este verão de 2017) e talvez fosse esse o motivo para a segurar, até ao fim do verão e até ser conhecido o relatório (já repararam que todos os partidos se entenderam e foi produzido um relatório transparente, independente e muito bom?) sobre esse incêndio e fossem adotadas medidas, mas este fim-de-semana retirou qualquer timming, e fez cair por terra todas as estratégias que pudessem haver.

Sejamos honestos, ninguém estava à espera que estes incêndios, desta dimensão, acontecessem! Quem é que se lembra de tal em pleno outono? Eu sei que estava bom tempo e que estava vento e que estas duas variáveis são por si só propensas a incêndios, mas também sei que já estamos a meio de outubro e que já se pode fazer as chamadas queimadas e que o "perigo já passou". A estratégia de Costa estava até bem montada, mas, tal como aconteceu no passado com Vítor Gaspar que queria sair do Governo e Passos Coelho o fez esperar, volto a criticar a "espera" face a Constança Urbano de Sousa, e pelo mesmo argumento que, aliás, é um valor na minha vida: quem não quer estar, sai. Não se deve prender ninguém a uma relação (seja ela de que natureza for).

Ora, a Ministra sai com um pedido de demissão que, a meu ver, deixa-a ficar mal a ela, mas ao Primeiro-Ministro também, passando a ideia de que estavam à procura de alguém, o que não me parece que fosse necessário. E sai pela porta pequena. Pequenina. Infelizmente. Foi, em muitos momentos, o rosto da aflição, merecia melhor desfecho. Mas depois daquela intervenção, duríssima, de Marcelo, a Ministra não poderia ficar nem mais 24 horas no Governo. 

Por falar em Marcelo, eu acabo de dizer que ele foi duríssimo, mas foi não só com a Ministra, foi também com Costa, dando a ideia de que está a dar uma última oportunidade, mas também a todo o Parlamento e à sociedade civil como um todo.
Vejamos. Quanto ao que toca à então Ministra, acho que não é necessário dissecar muito, ele basicamente lhe passou um atestado de incompetência política em direto quase a demitindo pela própria boca. Mas como foi Marcelo a falar, no seu melhor, deixou portas abertas a diferentes interpretações. Claro que foi isso que aconteceu!

(Nota prévia: não estou a criticar a intervenção de Marcelo, porque quem o conhece e quem o elegeu sabia que ele ia meter a "colherada" mal tivesse oportunidade, e a intervenção foi um mea culpa que o Governo deveria também ter feito e não o fez, o que aumentou ainda mais a pertinência da sua intervenção e que retirou, com isso, qualquer margem de manobra a este Governo)

Ora, e que interpretações são essas? É fácil de ver, a que Passos Coelho já veio materializar, a reboque de Assunção Cristas, e a de que o Orçamento de Estado tem de ser bem ponderado.

Quando o Presidente diz que o Parlamento tem de refletir bem sobre a moção de censura ao Governo apresentada pelo CDS para depois não haver equivocos, está a dizer em português corrente: vejam lá o que vão fazer, se os tiram de lá, quem é que para lá vai? E ao mesmo tempo pede reformas, caso este Governo se aguente, e só com ele pode haver no imediato. Mais uma vez, a economia não é tudo, muito menos o défice, e aqui acompanho, de mão dada, o Presidente. O défice está a ser um sucesso deste Governo, indiscutivelmente, mas eu preferia ter mais uns 0,5% de défice e ter essa margem em mais investimento no país, nomeadamente em matéria de atratividade do interior e de prevenção contra causas naturais (incêndios, cheias e afins).

Já agora, e se o Governo cair? Quem vai a eleições pelo PSD? Será que esta pode ter sido vista como a janela de oportunidade para a sua sobrevivência, por parte de Passos Coelho? Próximo artigo, brevemente.

Não posso terminar sem deixar uma palavra, sentida, a todos os afetados pelos incêndios, que deflagraram em Portugal, que deve ser já um fenómeno quase comparável ao da emigração na medida em que todos já devemos conhecer alguém que tenha relações, mais ou menos diretas com pessoas ou localidades afetadas pelos incêndios. Aos bombeiros, mas também aos polícias municipais e PSP, assim como GNR e "heróis" que foram surgindo, o meu muito obrigado.


quinta-feira, 21 de setembro de 2017

Autárquicas Mindelo

Ora, já há muito que andava para publicar este texto acerca das eleições autárquicas na minha freguesia, Mindelo.

Primeiro, estava à espera da apresentação dos candidatos, uma vez que sou também candidato, mas depois fui percebendo que haveriam outros pontos a abordar. Curiosamente, este texto será sobre esses pontos.

Em primeiro, e porque acredito que a política é feita de valorização sempre em primeira instância, falar da candidatura do Partido Socialista à freguesia de Mindelo, encabeçada pelo Domingos Duarte. Em segundo, dar resposta a quem possa duvidar da minha condição de mindelense. Por fim, deixar a minha visão acerca de 3 das 5 outras candidaturas ao mesmo órgão autárquico.

Em ciência política, estas eleições seriam naturalmente ganhas pelo Domingos. O Domingos é um homem da terra. Conhece os Mindelenses e os Mindelenses conhecem-no. Mas isto é só a ponta do icebergue. Todas as associações Mindelenses que pediram colaboração ao Domingos, ele disse sim. Quando a junta de freguesia lhe pediu ajuda pelas diversas vezes, ele disse sempre sim, e a zero, sem receber qualquer honorário. Ele é um candidato que conhece todos os dossiers que dizem respeito a Mindelo. Fala deles todos, sem problemas (mas escusam de o chamar sem qualquer critério só por fachada, para isso o Domingos não está disponível, creio). E não, não é só passado, o Domingos quer fazer parte do futuro de Mindelo. Por isso ele candidata-se com um projeto para 4 anos, pelo menos. Para quem acha que ele se vai demitir, como aconteceu com os dois últimos presidentes eleitos pelo Partido Socialista em Mindelo, esqueça, não vai acontecer.

O próprio PS está de parabéns. É poder há mais de 10 anos e ainda assim consegue apresentar-se a eleições com uma lista renovada, onde os primeiros lugares foram confiados a novos elementos, que não faziam parte da lista de há 4 anos e têm uma média de idade bastante jovem para o habitual.

Quanto a minha condição de mindelense, não preciso de ir muito longe. Vejamos a sede de campanha do PS (já agora, as outras candidaturas têm sede de campanha?), fica mesmo ao lado da casa onde cresci, a uns 150metros da escola primária que frequentei, da padaria onde ia buscar pão todos os dias, a beira do café do avô do meu amigo de infância onde passei tardes a jogar PSP (playstation portable), o supermercado onde fazia compras e o restaurante com diária onde comia frequentemente, e a piscina mesmo ali ao lado, onde passei tardes de verão nos míticos e saudosos anos 90 e início do novo milénio! Do outro lado da rua da sede, fica o restaurante que me sinto em casa e que ia frequentemente buscar takeaway... É preciso mais? Calculo que não mas ainda assim, há Mindelenses que se lembram de me ver com uma mochila de campismo maior que eu na estação de comboio (muitos anos atrás certo?) quando arrancava para mais um acampamento do agrupamento de escuteiros 572, joguei (não muito bem, mas enfim) no interfreguesias pela ACDM. Já agora, por falar em ACDM, fiz parte dos per'curtir nos seus primeiros anos e fiz parte da direção antes da atual tomar posse.
Naturalmente que a vida da voltas e por vezes gostaria de estar presente de uma forma ainda mais ativa mas, ainda há dúvidas de alguma coisa?

As outras 3 candidaturas que me vou sucintamente expressar, a NAU, PVC e PSD /CDS.

NAU apresenta como candidato o Cláudio Matos, andou comigo na escola mas, a sério que é preciso juntar os candidatos pela NAU em Vila Chã para as ações de campanha? Estão a pensar unir as freguesias em caso de vitória?

PVC apresenta a Ermelinda Dourado como candidata. Mora na minha rua e já muito se envolveu na freguesia. Admiro bastante essa postura pró-cidadania. Admiro de tal forma que tenho até pena de ela ter deixado de ser a candidata de Mindelo pelo Partido Socialista à Assembleia Municipal, uma vez que ao longo dos últimos 4 anos nos representou como tal. Mas enfim, a independência falou mais alto e a democracia fica a ganhar mais uma candidatura.

PSD /CDS apresenta Carlos Maia, que para mim não é Carlos Maia mas sim o chefe Maia. Foi meu chefe de escuteiros e continuei sempre a cumprimenta-lo como escuteiro, e os escuteiros sabem como é. Respeito-o e admiro-o bastante, mas não posso concordar com a sua grande bandeira nesta segunda tentativa, consecutiva, de conquistar a junta. Colocar Mindelo no mapa é o objetivo de todos os Mindelenses, mas ambos sabemos que não depende da junta de freguesia mas sim do processo judicial que se arrasta já há demasiado tempo. Consequências de uma justiça morosa como a que Portugal tem...

Com tantas opções, os Mindelenses têm o dever redobrado de votar. A abstenção não pode ganhar, uma vez mais, na nossa democracia. Mindelo é e será dos Mindelenses, cabe-nos a nós decidir o futuro da nossa terra.